WinSenga: exame de ultrassom por smartphone amplia o acesso ao pré-natal

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É grandioso o momento em que o ultrassom permite que a gestante ouça o batimento cardíaco de seu filho ainda no útero, mas muitas grávidas no mundo nunca vão experimentar esta sensação.

Em muitos países, o atendimento pré-natal é caro, complicado e requer esforços desiguais em relação a outros locais. Em Uganda, o governo recomenda quatro consultas pré-natal para grávidas, embora as mulheres – especialmente aquelas que vivem em áreas rurais – nem sempre tenham dinheiro, tempo ou meios para viajar para ver um médico em um hospital. Frequentemente elas buscam ajuda com as parteiras locais, mas as parteiras nem sempre têm acesso a equipamentos médicos modernos.

Um grupo de jovens desenvolvedores africanos recentemente decidiu usar a tecnologia para atacar esse problema. Sua empresa, a Cipher256, criou um ultrassom via smartphone chamado WinSenga, um fetoscópio acessível que se conecta a um telefone celular e é operado por meio de um aplicativo. No passado, as gestantes tinham de imaginar o que médicos e parteiras ouviam enquanto escutavam os batimentos cardíacos de seu bebê em dispositivos antiquados. Agora, o WinSenga possibilita que médicos e parteiras monitorem mais facilmente a saúde do feto, além de deixar as mães participarem da experiência, permitindo a elas escutar o zunido suave do coração do seu bebê pelos fones de ouvido.

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“Não é apenas uma ótima maneira de acompanhar a saúde da gravidez e aumentar a consciência se houver problemas. Ele traz paz de espírito para as mães. As mães sempre querem ouvir os batimentos cardíacos de seu bebê”, diz Joshua Okello, co-fundador e líder da equipe da Cipher256.

“Isso lhes dá a garantia de que o bebê realmente está muito bem”, acrescenta Edmund Ainebyona, gerente geral da Cipher256. “Também as deixam muito felizes.”

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WinSenga é uma alternativa de ultrassom de baixo custo, baseada em smartphone, que se conecta a um telefone celular e é operada por meio de um aplicativo

WinSenga teve início há alguns anos, quando a competição Imagine Cup, da Microsoft, inspirou os estudantes universitários Okello e Aaron Tushabe a usarem suas habilidades de informática para enfrentar alguns dos maiores desafios do mundo. Eles foram movidos pelo sofrimento das mães que vivem fora do alcance dos cuidados médicos modernos.

Em 2013, um número estimado de 3 milhões de mortes de recém-nascidos e mais de 2 milhões de natimortos foram registrados em todo o mundo, juntamente com 200 mil mortes maternas, afirma Okello.

“Adivinhe de onde é a maioria destes registros? Países em desenvolvimento. Mas onde exatamente? Mais de 60% das pessoas estão na África Subsaariana. Na realidade, se você fizer as contas, mais de 1,2 bilhão da população africana vive nessa área em particular”, conta Okello.

Ao melhorar a experiência das gestantes e possivelmente até mesmo o resultado das gestações, a equipe espera poder “virar uma nova página” na África.

“As mães são, na verdade, o alicerce de cada comunidade africana que conheço. As estatísticas mostram que mães saudáveis em qualquer comunidade significam níveis de educação maiores, um melhor desenvolvimento socioeconômico para toda a comunidade e um futuro melhor”, diz Okello.

E Ainebyona complementa: “Em última instância, nós acreditamos que o WinSenga será capaz de atravessar fronteiras e ajudar outros países que enfrentam os mesmos problemas”.

A parteira Prossy Alanyo examine a paciente no Entebbe Main Hospital em Uganda. O dispositivo WinSenga device permite aos médicos e parteiras monitorar mais facilmente a saúde do feto.

A parteira Prossy Alanyo examina uma paciente no principal hospital de Entebbe, em Uganda. O dispositivo WinSenga permite aos médicos e parteiras monitorar mais facilmente a saúde do feto

A ideia deles para reinventar o ultrassom ganhou o Imagine Cup Oriental e Austral Africano, da Microsoft, em 2012, e recebeu uma doação de 50.000 dólares do Social Innovation Summit no Vale do Silício.

Além dos recursos, a Microsoft deu mentoria à equipe, acesso ao software e assessoria técnica ao longo do processo para ajudá-los a transformar seu conceito numa startup de pleno direito. A Cipher256 agora tem vários empregados, e seus fundadores orientam outros jovens tecnólogos. A equipe trabalha atualmente no terceiro protótipo do WinSenga, e o dispositivo está sendo testado por um obstetra e parteiras em clínicas em Uganda. A empresa busca aprovação regulatória das autoridades ugandesas para iniciar os ensaios clínicos formais em 2016.

“Os ensaios clínicos irão nos alimentar com uma grande quantidade de dados sobre o estado do dispositivo: o quão preciso ele é comparado com aparelhos padrão, como o Doppler fetal, ou com o que todo mundo estiver usando. Esse é o tipo de feedback que nós precisamos”, afirma Okello. “Em última análise, queremos salvar vidas, tanto do feto quanto da mãe.”

O WinSenga baseia-se em tecnologia Microsoft – o aplicativo foi criado em Visual Studio, é apoiado pelos serviços em nuvem do Azure e atualmente roda em Windows Phone.

“A Microsoft tem sido o nosso melhor apoio”, diz Okello. “A Imagine Cup abriu as portas para um mundo totalmente novo – ela tirou as escamas dos meus olhos e foi um trampolim para todo o resto do que temos feito.”

É disso que a Imagine Cup e os nossos outros programas do Microsoft YouthSpark se tratam, explica Ken Ryals, diretor sênior da Microsoft Philanthropies. A equipe da Cipher256 é um exemplo de como a ampliação do acesso às habilidades de computação podem desencadear a inovação que pode fazer uma diferença real para a sociedade.

“É central para a missão da nossa empresa capacitar cada pessoa e organização no planeta. Nós sentimos que os jovens têm paixão e integridade para mudar positivamente o mundo e, ao combinar isso com habilidades de ciência da computação, podemos ajudá-los a alcançar coisas incríveis”, afirma Ryals.

“Com tantas questões complexas que as comunidades do mundo enfrentam, é esperançoso saber que no futuro haverá pessoas visionárias impulsionado os jovens a imaginar e criar soluções significativas.”

Robert Busingye, um ginecologista obstetra em Uganda, afirmou que em seu país os médicos e parteiras ainda utilizam amplamente o estetoscópio fetal de Pinard, inventado pelo obstetra francês dr. Adolphe Pinard em 1895. Ainda se trabalha posicionando o estetoscópio de Pinard na barriga de uma mãe para ouvir o batimento cardíaco do bebê – ele ainda é utilizado, mais de 100 anos depois de sua invenção. Mas sua eficácia se baseia fortemente na experiência da parteira.

“Há alguns desafios. A parteira precisa ser muito boa para ser capaz de pegar o batimento cardíaco do bebê. Às vezes, ele pode ser confundido com os batimentos da mãe”, explica Busingye, que tem ajudado a equipe de teste do WinSenga a melhorar seu produto. “E quando o batimento é lento ou rápido, ela pode achar muito difícil contar com a precisão. Uma vez que existem padrões sobre o que é normal e o que é anormal, ela pode classificar erroneamente o anormal como normal, levando a um erro.”

Erros significam possivelmente a falta do diagnóstico de estresse fetal, que pode colocar o bebê e a mãe em perigo. A sensibilidade do WinSenga não só faz com que seja mais fácil monitorar as batidas de um coração, mas ajuda a fazê-lo no início de uma gravidez – às 13 semanas, em comparação com as 22 semanas de gestação que normalmente se espera para ouvir os batimentos usando o estetoscópio de Pinard. WinSenga também se provou útil no trabalho de parto, permitindo que médicos e parteiras possam acompanhar de perto o batimento cardíaco do bebê.

“Temos uma enorme taxa de mortalidade fetal. Nós perdemos muitos bebês neste país e tudo o que pudermos fazer para melhorar a precisão para detectar que há um problema e agir em tempo hábil ajudaria os médicos a melhorarem as estatísticas”, disse Busingye. “É maravilhoso. E, como alguém que tem trabalhado há algum tempo, é animador poder olhar para os mesmos problemas que temos e ver se existem novas maneiras de encará-los para encontrar novas soluções. Agora que temos as pessoas mais jovens, eles têm algumas outras habilidades que talvez nós não adquirimos em nossa própria vida. E, juntos, poderíamos trabalhar em direção a um futuro melhor”.

Um futuro melhor é exatamente para onde Okello tem os olhos direcionados.

“Como médico, senti que poderia impactar um grande número de vidas. Mas, como um desenvolvedor, posso potencialmente impactar muitas, muitas mais vidas”, afirma. “Sou uma daquelas pessoas que acreditam que os problemas da África não são tão políticos, mas de uma mentalidade. É brega, mas se você acredita, você pode conseguir.”

Criar uma startup de sucesso tem sido um trabalho tremendamente difícil e, embora haja dias em que luta apenas para manter as luzes acesas ou que sinta definitivamente vontade de desistir, Okello diz que acredita.

“Se você acredita em Deus, no universo ou na ciência, não importa. Se tem um talento, eu acho que você deve ao resto da humanidade a utilização dele para mudar alguma coisa”, afirma Okello. “Só não venha apenas para consumir e, em seguida, morrer e partir. O melhor contentamento que você pode ter é saber que você viveu uma vida que impactou outros. Esperamos que de forma positiva, certo?”

Por Jennifer Warnick, da equipe do Microsoft News Center.

Fotos de David Palmer.

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